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Calculadora de Testosterona Livre e Biodisponível

A testosterona total, sozinha, engana com frequência. O que chega de fato aos tecidos é a fração livre somada à fração fracamente ligada à albumina — a chamada testosterona biodisponível. Informe abaixo os três valores do seu exame e veja essas frações calculadas pela equação de Vermeulen (1999), a mesma adotada pela ISSAM.

Testosterona livre e biodisponível

Equação de Vermeulen (1999) — a mesma adotada pela ISSAM

nmol/L
Unidade praticamente universal nos laudos brasileiros.
Exemplos

Cole abaixo o texto do seu laudo. Eu procuro a testosterona total, a SHBG e a albumina e preencho os campos — depois confira se ficou certo.

Testosterona livre

ng/dL

Testosterona biodisponível

ng/dL
Livre Ligada à albumina Ligada à SHBG
Ver todos os valores calculados
Como ler este resultado. Não existe intervalo de referência harmonizado internacionalmente para a testosterona livre calculada: o valor depende do ensaio de SHBG e da equação usada. Compare sempre com o intervalo do laboratório que fez o exame. Um número isolado não fecha nem exclui diagnóstico — ele só tem sentido junto com os sintomas, o exame físico, o horário da coleta e, quando indicado, uma segunda dosagem.
Calculado em diegomaier.com/calculadora-de-testosterona/ — equação de Vermeulen (1999). Documento de referência, não substitui avaliação médica.

Entenda o cálculo, a interpretação e os limites

Por que o valor total pode enganar

No plasma, a testosterona quase nunca circula sozinha. Ela se distribui em três frações, e é essa distribuição — não o número total — que determina quanta ação hormonal chega aos tecidos:

  • Testosterona livre (cerca de 1 a 3% do total) — a fração não ligada a proteínas, imediatamente disponível para atravessar a membrana celular.
  • Ligada à albumina (aproximadamente 20 a 50%) — ligação de baixa afinidade e rapidamente reversível. Na prática, dissocia-se durante a passagem pelo capilar e também fica disponível para os tecidos.
  • Ligada à SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais) — ligação de alta afinidade. Essa fração funciona como reservatório circulante e não está prontamente disponível.

A testosterona biodisponível é a soma da fração livre com a fração ligada à albumina. É ela que melhor representa o androgênio efetivamente acessível.

Isso importa porque a SHBG varia muito entre pessoas e ao longo da vida. Ela sobe com o envelhecimento, o hipertireoidismo, as hepatopatias, os estrogênios e a restrição calórica; e cai na obesidade, na resistência à insulina, no hipotireoidismo, na síndrome nefrótica e no uso de glicocorticoides ou androgênios. Duas pessoas com a mesma testosterona total podem ter testosterona livre bastante diferente — e é exatamente aí que a dosagem total, isolada, induz a erro.

Em 1999, Vermeulen, Verdonck e Kaufman publicaram no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism uma equação derivada da lei de ação das massas que estima essas frações a partir de três valores de rotina: testosterona total, SHBG e albumina.

Como interpretar o resultado

A primeira regra é desconfortável, mas precisa ser dita: não existe intervalo de referência harmonizado internacionalmente para a testosterona livre calculada. O valor depende do ensaio de SHBG usado pelo laboratório e da equação escolhida. Por isso a comparação correta é sempre com o intervalo do laboratório que fez a sua dosagem, e não com um número da internet.

Dito isso, alguns pontos de referência ajudam a orientar a leitura:

  • Homens adultos. A testosterona livre calculada costuma se situar entre aproximadamente 50 e 210 pg/mL. A diretriz da Endocrine Society (2018) cita 64 pg/mL (220 pmol/L) como limite inferior a partir do qual se considera deficiência androgênica, desde que existam sintomas compatíveis.
  • Quando calcular a fração livre. A mesma diretriz orienta calcular a testosterona livre quando a total está na zona limítrofe (grosso modo entre 200 e 400 ng/dL) ou quando existe alguma condição que altere a SHBG.
  • Mulheres. As concentrações são muito mais baixas e a equação perde acurácia. Nesse contexto costuma-se usar o índice de androgênio livre (FAI); valores acima de cerca de 5 sugerem hiperandrogenismo bioquímico, achado frequente na síndrome dos ovários policísticos. O ponto de corte varia entre laboratórios.

Nenhum desses números fecha diagnóstico sozinho. A testosterona tem variação circadiana importante — a coleta deve ser feita pela manhã, idealmente entre 7h e 10h — e uma dosagem alterada precisa ser confirmada em nova amostra antes de qualquer decisão.

A equação de Vermeulen, passo a passo

O cálculo resolve o equilíbrio químico entre a testosterona e suas duas proteínas transportadoras. Todas as concentrações entram em mol/L.

1. Constantes de associação

  • KSHBG = 1,0 × 109 L/mol — afinidade da SHBG pela testosterona (alta).
  • Kalb = 3,6 × 104 L/mol — afinidade da albumina pela testosterona (baixa, cerca de 30 mil vezes menor).

2. Fator de ligação à albumina

Primeiro se calcula a constante N, que expressa quanto a albumina presente amplifica a fração disponível:

N = 1 + Kalb × [Albumina]

com a albumina convertida para mol/L (massa molar de 69.000 g/mol). Para o valor de referência de 4,3 g/dL adotado por Vermeulen, N ≈ 23,4.

3. Equação de segundo grau

A testosterona livre é a raiz positiva de:

a · [Tlivre]2 + b · [Tlivre] + c = 0

onde:

  • a = N × KSHBG
  • b = N + KSHBG × ([SHBG] − [Ttotal])
  • c = − [Ttotal]

Resolvendo pela fórmula quadrática e tomando a raiz positiva:

[Tlivre] = ( −b + √(b2 − 4ac) ) / 2a

Repare em dois detalhes que costumam ser fonte de erro em versões simplificadas espalhadas pela internet. Primeiro, b depende da SHBG e da testosterona total de cada pessoa — não é uma constante; fixá-lo produz resultados sem sentido quando a SHBG é baixa ou a testosterona é alta. Segundo, o coeficiente a é N multiplicado por KSHBG, e não apenas N: esquecer essa multiplicação infla o resultado em cerca de um bilhão de vezes.

4. Testosterona biodisponível

[Tbiodisponível] = N × [Tlivre]

Ou seja: a fração livre somada à fração fracamente ligada à albumina.

5. Conversões de unidade usadas

  • Testosterona: 1 nmol/L = 28,84 ng/dL (massa molar 288,4 g/mol).
  • Testosterona livre: 1 ng/dL = 10 pg/mL.
  • Albumina: 1 g/dL = 10 g/L; massa molar 69.000 g/mol.
  • Índice de androgênio livre: FAI = (T total em nmol/L ÷ SHBG em nmol/L) × 100.

Exemplo conferido

Para albumina 4,3 g/dL, SHBG 54 nmol/L e testosterona total 400 ng/dL:

  • Testosterona livre: 5,85 ng/dL (58,5 pg/mL; 203 pmol/L) — 1,46% do total.
  • Testosterona biodisponível: 137,2 ng/dL34,3% do total.

Esse resultado reproduz o obtido pela calculadora da ISSAM com os mesmos valores, o que serve como conferência da implementação usada aqui.

Onde a fração livre muda a leitura do caso

A testosterona total isolada é um indicador incompleto sempre que a SHBG está deslocada. Situações em que o cálculo costuma alterar a interpretação:

  • Obesidade e resistência à insulina — a SHBG cai, o que reduz a testosterona total. A fração livre pode estar preservada, e olhar apenas o total levaria a uma conclusão equivocada. Se esse é o seu contexto, vale ler também sobre como preservar massa magra durante o emagrecimento e conferir o seu índice de massa corporal.
  • Envelhecimento masculino — a SHBG sobe progressivamente. Aqui ocorre o inverso: a total parece aceitável enquanto a biodisponível já caiu.
  • Síndrome dos ovários policísticos — a SHBG baixa eleva a fração livre mesmo com testosterona total no limite superior, o que ajuda a explicar sintomas androgênicos. Para acompanhar o ciclo, veja a calculadora de fertilidade e ciclo menstrual.
  • Doenças da tireoide — o hipertireoidismo eleva a SHBG e o hipotireoidismo a reduz, deslocando as frações nos dois sentidos.
  • Hepatopatia crônica e síndrome nefrótica — alteram simultaneamente a SHBG e a albumina.
  • Uso de estrogênios, anticoncepcionais ou glicocorticoides — modificam a SHBG de forma clinicamente relevante.
  • Sono ruim e estresse crônico — reduzem a secreção de testosterona. Se você dorme mal, o índice de gravidade de insônia (ISI) ajuda a dimensionar o problema.

Limitações que valem conhecer

  • Qualidade da dosagem de entrada. O cálculo herda a imprecisão do ensaio. A testosterona total por imunoensaio tem desempenho ruim em concentrações baixas — a referência é a espectrometria de massas.
  • Concentrações baixas. Em mulheres, crianças e homens com hipogonadismo acentuado, a acurácia da equação cai.
  • Androgênios exógenos. Testosterona em gel, oral, injetável ou derivados da di-hidrotestosterona alteram a ligação às proteínas e tornam a estimativa pouco confiável.
  • Gestação. A SHBG sobe muito, e o modelo perde validade.
  • Albumina estimada. Usar o valor padrão de 4,3 g/dL é aceitável na maioria dos casos, mas introduz erro em quem tem hipoalbuminemia — informe o valor real quando disponível.
  • É uma estimativa. O padrão-ouro continua sendo a diálise de equilíbrio, método pouco disponível na rotina. A equação de Vermeulen é a melhor aproximação prática, não uma medida direta.

Perguntas frequentes

Preciso estar em jejum para dosar testosterona?

O jejum não é obrigatório para a dosagem em si, mas costuma ser solicitado porque a coleta normalmente é feita junto com glicemia e perfil lipídico. O que realmente importa é o horário: a testosterona segue ritmo circadiano, com pico matinal, e a coleta deve ocorrer entre 7h e 10h.

Posso usar a albumina padrão de 4,3 g/dL?

Sim, na maior parte dos casos — foi o valor adotado no trabalho original. Se você tem o resultado da sua albumina, informe: em hipoalbuminemia o valor padrão superestima a fração biodisponível.

Qual é a diferença entre testosterona livre calculada e a dosada direto pelo laboratório?

Os ensaios diretos de testosterona livre por análogo, comuns e baratos, têm acurácia reconhecidamente baixa e não são recomendados pelas diretrizes. A testosterona livre calculada pela equação de Vermeulen apresenta correlação bem melhor com a diálise de equilíbrio, que é o método de referência.

Um resultado alterado significa que preciso repor testosterona?

Não. A caracterização de deficiência androgênica exige sintomas compatíveis somados a dosagens baixas confirmadas em duas coletas matinais distintas, além da investigação da causa. Reposição hormonal tem indicações, contraindicações e riscos próprios, e a decisão é individual e médica.

Por que minha testosterona total está baixa se eu me sinto bem?

Uma causa frequente é a SHBG reduzida — comum em obesidade, resistência à insulina e hipotireoidismo. Nesse cenário, a total cai porque há menos proteína transportadora, enquanto a fração livre permanece adequada. É precisamente o tipo de situação que o cálculo desta página ajuda a esclarecer.

Meus dados ficam salvos?

Não. O cálculo acontece inteiramente no seu navegador. Nenhum valor digitado aqui é enviado, armazenado ou compartilhado.

Outras calculadoras que podem ajudar

Referências

  1. Vermeulen A, Verdonck L, Kaufman JM. A critical evaluation of simple methods for the estimation of free testosterone in serum. J Clin Endocrinol Metab. 1999;84(10):3666-72. doi:10.1210/jcem.84.10.6079
  2. Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-44. doi:10.1210/jc.2018-00229
  3. Ho CKM, Stoddart M, Walton M, Anderson RA, Beckett GJ. Calculated free testosterone in men: comparison of four equations and with free androgen index. Ann Clin Biochem. 2006;43(Pt 5):389-97. doi:10.1258/000456306778520115
  4. Goldman AL, Bhasin S, Wu FCW, Krishna M, Matsumoto AM, Jasuja R. A Reappraisal of Testosterone’s Binding in Circulation: Physiological and Clinical Implications. Endocr Rev. 2017;38(4):302-24. doi:10.1210/er.2017-00025
  5. Rosner W, Auchus RJ, Azziz R, Sluss PM, Raff H. Position statement: Utility, limitations, and pitfalls in measuring testosterone: an Endocrine Society position statement. J Clin Endocrinol Metab. 2007;92(2):405-13. doi:10.1210/jc.2006-1864
  6. International Society for the Study of the Aging Male (ISSAM). Free & Bioavailable Testosterone Calculator. Disponível em: issam.ch/freetesto.htm

Aviso importante

Esta página tem caráter educativo e de referência. A calculadora apenas aplica uma equação científica publicada a valores informados pelo próprio usuário: ela não realiza diagnóstico, não indica, ajusta nem suspende tratamento e não substitui a consulta médica, presencial ou por teleconsulta.

A interpretação de exames hormonais depende do quadro clínico completo, do horário e das condições da coleta, do método usado pelo laboratório e do intervalo de referência informado no próprio laudo. Resultados fora da faixa esperada devem ser levados a um médico, que decidirá sobre a necessidade de repetição, investigação adicional ou conduta. Não interrompa nem inicie qualquer medicação por conta própria.

O cálculo é executado inteiramente no seu navegador. Nenhum valor digitado é transmitido, gravado ou compartilhado.

Página elaborada e revisada pelo Dr. Diegomaier Nunes Neri — CRM-SC 32925 · CRM-BA 39586.

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