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Obesidade e emagrecimento

Remédios para emagrecer: qual funciona mais, segundo os estudos

A comparação que os estudos permitem fazer — e as perguntas que importam mais do que o ranking de quilos. Conteúdo educativo, sem indicação de marca.

Dr. Diegomaier Nunes NeriPor Dr. Diegomaier Nunes Neri, médico · CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586 · revisado em · leitura de 14 min
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Em resumo
  • Pela perda média: tirzepatida (14,8%) > semaglutida (12,0%) > liraglutida (6,8%) ≈ naltrexona + bupropiona (4,8%) ≈ sibutramina > orlistate (2,1%), já descontado o placebo.
  • Só existem três comparações diretas publicadas; o resto são estudos diferentes postos lado a lado.
  • Perder peso não é o único desfecho: só a semaglutida 2,4 mg tem ensaio que mostrou redução de infarto, AVC e morte cardiovascular.
  • A escolha depende do tipo de fome, das contraindicações, da via (comprimido ou injeção) e do que você consegue manter — não do ranking.
  • Em todos, parar o tratamento devolve parte do peso. Obesidade é doença crônica.

Antes de tudo: este texto compara evidência científica sobre substâncias, não produtos. Cito os nomes comerciais uma vez cada, só para você reconhecer na receita. Não indico nenhum, não recebo nada de nenhum fabricante e nenhum destes medicamentos deve ser iniciado, trocado ou interrompido a partir de um texto da internet. Todos exigem receita.

Resposta curta: pela perda média de peso nos estudos, a ordem é tirzepatida > semaglutida > liraglutida ≈ naltrexona + bupropiona ≈ sibutramina > orlistate. A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, da ABESO (2026), separa os de alta potência (perda acima de 10% já descontado o placebo) dos de baixa a média potência (4% a 9,9%) e dos de potência muito baixa (abaixo de 4%) (ABESO, ABESO 2026).

Só que "qual emagrece mais" é a pergunta errada para quem vai tomar. A pergunta certa é qual faz sentido para você — e isso depende das suas contraindicações, do tipo de fome que você tem, de injeção ou comprimido, do que você consegue sustentar por anos e do que já existe de prova sobre coração, rim e diabetes. É isso que eu organizo abaixo.

A tabela que resume tudo

Perda de peso já descontado o placebo, em 52 semanas, segundo as metanálises reunidas pela diretriz brasileira (ABESO, ABESO 2026; McGowan et al., Nat Med 2025). É a forma mais honesta de comparar: tira o efeito de estar num estudo, sendo acompanhado de perto.

SubstânciaPerda além do placeboPotência (ABESO 2026)Como se usaAprovado no Brasil para obesidade?
Tirzepatida14,8%AltaInjeção semanalSim, desde junho de 2025 (ANVISA, 2025)
Semaglutida 2,4 mg12,0%AltaInjeção semanalSim, desde janeiro de 2023 (ANVISA, 2023)
Liraglutida 3,0 mg6,8%Baixa a médiaInjeção diáriaSim
Naltrexona + bupropiona4,8%Baixa a médiaComprimido, até 4/diaSim
Sibutramina4,2 kgBaixa a médiaCápsula, 1×/diaSim
Orlistate2,1%Muito baixaCápsula, 3×/diaSim

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Nos ensaios individuais, para dar escala: tirzepatida 15 mg levou a −20,9% em 72 semanas (Jastreboff et al., N Engl J Med 2022 — SURMOUNT-1); semaglutida 2,4 mg a −14,9% em 68 semanas (Wilding et al., N Engl J Med 2021 — STEP 1); liraglutida 3,0 mg a −8,0% em 56 semanas (Pi-Sunyer et al., N Engl J Med 2015 — SCALE); naltrexona + bupropiona a −6,1% em 56 semanas (Greenway et al., Lancet 2010 — COR-I); orlistate a −5,8 kg em 4 anos (Torgerson et al., Diabetes Care 2004 — XENDOS).

As únicas comparações diretas que existem

Quase tudo o que se diz por aí é comparação indireta — estudos diferentes, populações diferentes. Cara a cara, só existem três:

Comparação diretaResultadoEstudo
Tirzepatida vs semaglutida 2,4 mg−20,2% vs −13,7%SURMOUNT-5, 72 semanas, aberto (Aronne et al., N Engl J Med 2025 — SURMOUNT-5)
Semaglutida 2,4 mg vs liraglutida 3,0 mg−15,8% vs −6,4%STEP 8, 68 semanas, aberto (Rubino et al., JAMA 2022 — STEP 8)
Semaglutida 7,2 mg vs 2,4 mg−18,7% vs −15,6%STEP UP, 72 semanas (Wharton et al., Lancet Diabetes Endocrinol 2025 — STEP UP)

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Repare que nenhum estudo comparou um comprimido com uma injeção cara a cara. Quando alguém diz "tal caneta emagrece o dobro do comprimido", está somando resultados de estudos diferentes — é uma estimativa razoável, não uma medição.

Perda de peso não é o único desfecho

Emagrecer é um meio, não o fim. O que muda a vida é o que acontece com o coração, com o diabetes e com a longevidade. E aqui o cenário é bem diferente da tabela de cima.

Como eu penso a escolha na consulta

Na prática, quase nunca começo pela pergunta "qual emagrece mais". Começo por estas:

1. Que tipo de fome é a sua?

Há quem sinta fome física — o estômago vazio, o volume grande na refeição, a saciedade que não chega. E há quem sinta vontade — a comida "chama" mesmo sem fome, o doce de fim de tarde, o beliscar por ansiedade. São circuitos cerebrais diferentes. Os agonistas de GLP-1 agem sobretudo na saciedade física; a dupla naltrexona + bupropiona age sobretudo na fissura e na recompensa. Um estudo que escolheu o remédio pelo perfil alimentar obteve 15,9% de perda em um ano, contra 9,0% com a escolha habitual (Acosta et al., Obesity 2021). Se quiser mapear o seu padrão antes da consulta, montei a escala de comportamento alimentar.

2. O que te impede de usar o mais potente?

A diretriz é clara: use alta potência sempre que possível (ABESO, ABESO 2026). "Sempre que possível" cai por terra quando há custo inviável, falta do produto, medo ou impossibilidade de injeção, intolerância ao GLP-1 (náusea que não passa), história de pancreatite, câncer medular de tireoide na família. São motivos legítimos e frequentes — e aí o de menor potência vira a melhor opção real, porque de nada adianta o remédio mais potente se a pessoa não consegue usá-lo.

3. Há alguma contraindicação que já elimina opções?

Epilepsia, transtorno bipolar, uso de opioides e hipertensão não controlada eliminam a naltrexona + bupropiona. Câncer medular de tireoide, neoplasia endócrina múltipla tipo 2 e pancreatite prévia eliminam os GLP-1. Doença cardiovascular estabelecida elimina a sibutramina. Essa pergunta sozinha costuma reduzir a lista pela metade.

4. Você consegue sustentar isso?

Obesidade é doença crônica. Nos estudos em que o remédio foi retirado, boa parte do peso voltou: no STEP 4, quem parou a semaglutida recuperou peso enquanto quem continuou seguiu perdendo (Rubino et al., JAMA 2021 — STEP 4); no SURMOUNT-4, o mesmo com a tirzepatida (Aronne et al., JAMA 2024 — SURMOUNT-4). Escolher um tratamento que você não poderá manter é escolher o reganho com data marcada. Essa conversa precisa ser feita no começo, não no fim.

5. O acompanhamento está no plano?

Esta talvez seja a parte mais subestimada. No COR-BMOD, o mesmo remédio que rendia 6% rendeu 9,3% quando veio junto com 28 sessões de mudança de comportamento ao longo do ano (Wadden et al., Obesity 2011 — COR-BMOD). Metade do resultado não estava na cartela.

Dá para combinar dois remédios?

A diretriz admite, quando a resposta foi insuficiente, mas com limites claros (ABESO, ABESO 2026):

E as fórmulas manipuladas?

A Diretriz ABESO 2026 não recomenda fórmulas magistrais no tratamento da obesidade — recomendação de classe III, a categoria reservada ao que "não é útil ou efetivo, e em alguns casos pode ser prejudicial" (ABESO, ABESO 2026). O argumento é que não passam por ensaios clínicos nem pelo mesmo controle de qualidade do medicamento industrializado. Em alguns casos há ainda uma diferença técnica importante: quando o comprimido original é de liberação prolongada, a cápsula manipulada comum libera tudo de uma vez, com pico mais alto de concentração.

O que ninguém pode te dizer por um texto

Nenhuma tabela decide o seu caso. As diferenças acima são médias de milhares de pessoas: dentro de cada estudo há quem tenha perdido 25% e quem não tenha perdido nada com o mesmo remédio. Seu resultado depende de genética, de comorbidades, da dose que você tolera, do quanto você consegue manter e do acompanhamento que terá. É exatamente por isso que esses medicamentos exigem receita e avaliação individual — e por que eu não indico nenhum deles aqui.

O que este texto pode fazer é te dar vocabulário para a consulta. Se você chegar sabendo que existe diferença de potência, que existe diferença de via, que existe o critério de reavaliar em alguns meses e que o acompanhamento vale metade do resultado, a conversa rende muito mais.

Perguntas frequentes

Qual remédio para emagrecer funciona mais?

Pela perda média de peso nos estudos, a tirzepatida, seguida da semaglutida. Já descontado o placebo, a tirzepatida fica em torno de 14,8% e a semaglutida em 12,0%, contra 6,8% da liraglutida, 4,8% da naltrexona + bupropiona e 2,1% do orlistate. Mas "funcionar mais" na média não quer dizer ser o mais adequado para uma pessoa específica: contraindicações, via de uso, tolerância e sustentabilidade pesam tanto quanto a potência.

Existe comparação direta entre eles?

Poucas. Tirzepatida contra semaglutida 2,4 mg (SURMOUNT-5: −20,2% vs −13,7%), semaglutida 2,4 mg contra liraglutida 3,0 mg (STEP 8: −15,8% vs −6,4%) e semaglutida 7,2 mg contra 2,4 mg (STEP UP). Nenhum estudo comparou comprimido com injeção cara a cara.

O comprimido é pior que a injeção?

Em perda média de peso, sim: os injetáveis do grupo GLP-1 produzem mais. Mas o comprimido tem vantagens reais — não exige agulha, custa menos e age sobre a fissura e o comer emocional, que é o padrão de muita gente. O tratamento que dá resultado é aquele que a pessoa consegue manter.

Posso combinar dois remédios para emagrecer?

A diretriz brasileira admite em caso de resposta insuficiente, mas não recomenda associar os agonistas de GLP-1 entre si, nem sibutramina com naltrexona + bupropiona. Combinar dois medicamentos para obesidade é geralmente uso fora da bula e exige experiência clínica. Nunca combine por conta própria.

Qual é o mais seguro para o coração?

A semaglutida 2,4 mg é a única com ensaio que mediu desfechos cardiovasculares e mostrou redução de infarto, AVC e morte cardiovascular em pessoas com doença cardiovascular e sem diabetes. Da naltrexona + bupropiona, o ensaio cardiovascular foi interrompido e a questão segue aberta. Da sibutramina, há estudo mostrando aumento de eventos em quem já tem doença do coração.

Quanto tempo preciso usar?

A obesidade é doença crônica, e os estudos em que o medicamento foi retirado mostram retorno de boa parte do peso. Na prática, o tratamento é de longo prazo, com reavaliação periódica de benefício, efeitos adversos e necessidade de continuar. Alguns medicamentos têm regra formal de suspender se não houver perda mínima em algumas semanas.

Engorda tudo de novo se eu parar?

Parte volta, na maioria das pessoas — foi o que aconteceu nos estudos de retirada tanto da semaglutida quanto da tirzepatida. Não é falha de caráter nem do remédio: é a fisiologia da doença. Por isso a decisão de começar deve considerar o que você poderá sustentar.

Posso usar fórmula manipulada em vez do medicamento industrializado?

A Diretriz ABESO 2026 não recomenda fórmulas magistrais no tratamento da obesidade, por falta de ensaios clínicos e do mesmo controle de qualidade. Quando o original é de liberação prolongada, há ainda uma diferença técnica: a cápsula manipulada comum libera tudo de uma vez.

Todos precisam de receita?

Sim. Todos os medicamentos citados aqui são de prescrição obrigatória, e vários estão sujeitos a controle especial. Sites ou perfis que oferecem qualquer um deles sem receita estão irregulares.

Referências

  1. ABESO. DIRETRIZ BRASILEIRA DE TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA OBESIDADE. ABESO. 2026. doi:10.47626/2026-abeso-0001
  2. McGowan B, Ciudin A, Baker JL, et al. A systematic review and meta-analysis of the efficacy and safety of pharmacological treatments for obesity in adults. Nat Med. 2025;31(10):3317-3329. doi:10.1038/s41591-025-03978-z
  3. Khera R, Murad MH, Chandar AK, et al. Association of Pharmacological Treatments for Obesity With Weight Loss and Adverse Events. JAMA. 2016;315(22):2424. doi:10.1001/jama.2016.7602
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  14. Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, et al. A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management [SCALE]. N Engl J Med. 2015;373(1):11-22. doi:10.1056/nejmoa1411892
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  21. ANVISA. Bula do profissional de saúde — naltrexona 8 mg + bupropiona 90 mg. Texto aprovado em 19/06/2026. Bulário Eletrônico
  22. ANVISA. Carta aos profissionais de saúde — naltrexona/bupropiona: risco cardiovascular a longo prazo e avaliação anual. 19 de maio de 2026. gov.br/anvisa
  23. ANVISA. Tirzepatida — inclusão de nova indicação terapêutica (controle crônico de peso). RESOLUÇÃO-RE nº 2.144, de 06/06/2025, DOU de 09/06/2025. in.gov.br
  24. ANVISA. Semaglutida 2,4 mg — registro de produto novo. RESOLUÇÃO-RE nº 4.310, de 29/12/2022, DOU de 02/01/2023. in.gov.br

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Sobre os nomes comerciais citados. Este texto compara evidência científica publicada sobre princípios ativos, não produtos no mercado. Os nomes comerciais aparecem uma única vez, entre parênteses, apenas para que o leitor reconheça na receita e na farmácia a que substância o texto se refere — exigência prática de clareza, não divulgação. Não há recomendação, indicação, endosso, comparação comercial, nem qualquer estímulo ao consumo de qualquer marca. Nenhum produto é apresentado como superior a outro para um leitor individual: as diferenças descritas são médias de populações em estudos clínicos e não predizem o resultado de nenhuma pessoa.

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Todos os medicamentos citados são de prescrição obrigatória e vários estão sujeitos a controle especial. A escolha do tratamento da obesidade depende de avaliação médica individual — história clínica, comorbidades, contraindicações, interações, preferências e condições de acesso de cada pessoa. Nenhum medicamento para obesidade deve ser iniciado, trocado ou interrompido com base neste ou em qualquer texto da internet.

Conteúdo elaborado e revisado por médico, com referências primárias indicadas e DOI verificável. Cada pessoa é única e deve ser avaliada individualmente. Em caso de dúvida, procure o seu médico.

Dr. Diegomaier Nunes Neri
Dr. Diegomaier Nunes Neri

Médico (CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586). Atende por teleconsulta pacientes de todo o Brasil e do exterior. Este conteúdo é educativo, revisado com base nas referências citadas, e não substitui uma consulta.

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Revisado em 6 de novembro de 2026 por Dr. Diegomaier Nunes Neri — CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586.