- Perda de peso de cerca de 4,8 pontos percentuais acima do placebo — a Diretriz ABESO 2026 classifica a combinação como de baixa a média potência, abaixo da semaglutida (12,0%) e da tirzepatida (14,8%).
- Nos estudos COR, a perda média foi de 6% a 9% em 56 semanas; o melhor resultado veio do estudo com 28 sessões de acompanhamento comportamental.
- Age na vontade de comer (fissura, beliscar, comer emocional), não na saciedade física — perfil diferente do das canetas de GLP-1.
- Novo em 2026: a bula brasileira passou a mandar reavaliar em 16 semanas (antes 12) e reavaliar o risco cardiovascular todo ano.
- Registrada na ANVISA e disponível no Brasil em quatro marcas (referência e similares). Exige receita de controle especial em duas vias.
Resposta curta: a associação de naltrexona 8 mg com bupropiona 90 mg funciona, mas é um remédio de efeito modesto. Nos quatro grandes ensaios clínicos, a perda média de peso ficou entre 5% e 9% em um ano, e a diferença em relação ao placebo foi de cerca de 4,8 pontos percentuais. A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, publicada pela ABESO em 2026, classifica essa combinação como de baixa a média potência — abaixo da semaglutida e da tirzepatida, no mesmo patamar da liraglutida (ABESO, ABESO 2026). Em compensação, é comprimido (não injeção), custa menos e atinge um alvo que as canetas não atingem bem: a vontade de comer, a fissura, o beliscar por emoção.
Aqui no Brasil a combinação é registrada na ANVISA e está nas farmácias desde 2023. Abaixo eu reúno o que os estudos realmente mostram, o que mudou na bula brasileira em junho de 2026 — uma mudança que a maioria dos textos na internet ainda não incorporou — e em que situação, na prática, ela costuma fazer sentido.
O que mudou em 2026 e quase ninguém atualizou: a bula brasileira aprovada em 19/06/2026 passou a mandar reavaliar em 16 semanas (antes eram 12) e reavaliar o risco cardiovascular todo ano. A ANVISA enviou carta aos médicos em 19/05/2026 explicando o motivo: os dados de segurança cardiovascular além de 12 meses ainda são insuficientes (bula brasileira, ANVISA 2026; carta da ANVISA, 2026). Muitos sites ainda repetem a bula de 2021.
Como esse remédio se chama no Brasil e em outros países
O princípio ativo é sempre o mesmo: cloridrato de naltrexona 8 mg + cloridrato de bupropiona 90 mg, em comprimido de liberação prolongada. O que muda é o nome na caixa. Cito as marcas apenas para você reconhecer o produto na receita ou na prateleira — não é indicação nem publicidade, e não tenho vínculo com nenhum fabricante.
| País | Nome comercial | Situação |
|---|---|---|
| Brasil | Contrave, Sliv, Reduxalt, Bupnal | Registrado na ANVISA como antiobesidade; nas farmácias |
| Estados Unidos | Contrave | Aprovado pelo FDA desde setembro de 2014 (bula do FDA, 2025) |
| Canadá | Contrave | Health Canada, comercializado desde 2018 |
| Austrália | Contrave | Registro ativo na TGA |
| União Europeia e Reino Unido | Mysimba | Autorizado pela EMA desde março de 2015 (EMA 2025) |
| Espanha | Mysimba | Autorizado, mas não comercializado |
| Argentina | Naltreva | Autorizado pela ANMAT em 2023 (ANMAT 2023) |
arraste a tabela para o lado →
Um detalhe que confunde: a bula europeia escreve "8 mg de cloridrato de naltrexona, equivalente a 7,2 mg de naltrexona". É o mesmo comprimido — um número se refere ao sal, o outro à base.
Não confunda com a naltrexona em dose baixa. A LDN usa naltrexona em doses de 1 a 4,5 mg com outra finalidade, e não é o mesmo que a naltrexona de 8 mg desta associação. Escrevi sobre isso em naltrexona em baixa dose (LDN).
Como age no cérebro: fome de um lado, vontade do outro
A fome tem dois circuitos diferentes, e esse remédio foi desenhado para mexer nos dois ao mesmo tempo.
- BupropionaEstimula os neurônios POMC do hipotálamo, o grupo de células que sinaliza saciedade. Aumenta dopamina e noradrenalina disponíveis.
- NaltrexonaBloqueia os receptores opioides. Esses neurônios POMC, quando ativados, liberam beta-endorfina, que os desliga de volta — a naltrexona tira esse freio.
- JuntasA bupropiona acelera, a naltrexona impede o desligamento. Por isso o efeito da dupla é maior que o de cada uma isolada.
Na prática, o efeito aparece menos como "estômago cheio" e mais como redução da fissura: o doce de fim de tarde que deixa de chamar, a vontade de beliscar que diminui. É diferente das canetas de GLP-1, que atuam principalmente retardando o esvaziamento do estômago e aumentando a saciedade física.
Quanto emagrece: o que mostram os estudos COR
Quatro ensaios de fase 3, todos com 56 semanas, formam a base da aprovação. Nos quadros abaixo, "análise principal" é o resultado contando todos os participantes que receberam o remédio (inclusive quem abandonou) e "entre quem completou" é só quem chegou ao fim.
| Estudo | Quem participou | Perda com o remédio | Perda com placebo | Perdeu ≥5% do peso |
|---|---|---|---|---|
| COR-I (Greenway et al., Lancet 2010 — COR-I) | 1.742 adultos com obesidade | −6,1% −8,1% entre quem completou | −1,3% | 48% vs 16% |
| COR-II (Apovian et al., Obesity 2013 — COR-II) | 1.496 adultos | −6,4% −8,2% entre quem completou | −1,2% | 50% vs 17% |
| COR-BMOD (Wadden et al., Obesity 2011 — COR-BMOD) | 793 adultos, com 28 sessões de mudança de comportamento | −9,3% −11,5% entre quem completou | −5,1% | mais que o placebo (p<0,001) |
| COR-Diabetes (Hollander et al., Diabetes Care 2013 — COR-Diabetes) | 505 adultos com diabetes tipo 2 | −5,0% | −1,8% | 45% vs 19% |
arraste a tabela para o lado →
Três leituras honestas desses números:
- O melhor resultado veio do estudo com acompanhamento intensivo. No COR-BMOD, com 28 sessões de mudança de comportamento em um ano, a perda chegou a 9,3%. Sem esse suporte, ficou em torno de 6%. O remédio sozinho entrega bem menos do que o remédio com acompanhamento.
- Cerca de metade dos participantes abandonou antes de um ano. Essa é a maior fragilidade do programa inteiro, e o próprio comitê da EMA registrou isso. Quem abandona pode ser diferente de quem fica.
- No diabetes tipo 2 o efeito foi menor — 5,0% —, o que costuma acontecer com todos os remédios para obesidade. Em compensação, a hemoglobina glicada caiu 0,6 ponto (Hollander et al., Diabetes Care 2013 — COR-Diabetes).
O efeito costuma aparecer quando?
A dose plena só é atingida na 4ª semana. A partir daí, a curva de perda de peso continua descendo até por volta do sexto ao nono mês, quando tende a estabilizar. Por isso a bula brasileira manda reavaliar em 16 semanas — é tempo suficiente para saber se o seu corpo respondeu.
Comparando com as outras opções disponíveis no Brasil
A Diretriz ABESO 2026 reuniu as metanálises e organizou os medicamentos por potência. Os números abaixo são perda de peso já descontado o placebo em 52 semanas — é a forma mais justa de comparar (ABESO, ABESO 2026).
| Medicamento | Perda além do placebo | Potência (ABESO 2026) | Como se usa |
|---|---|---|---|
| Orlistate | 2,1% | Muito baixa | Cápsula, 3×/dia |
| Sibutramina | 4,2 kg | Baixa a média | Cápsula, 1×/dia |
| Naltrexona + bupropiona | 4,8% | Baixa a média | Comprimido, até 4/dia |
| Liraglutida | 6,8% | Baixa a média | Injeção diária |
| Semaglutida | 12,0% | Alta | Injeção semanal |
| Tirzepatida | 14,8% | Alta | Injeção semanal |
arraste a tabela para o lado →
Nos ensaios individuais, para dar escala: a semaglutida 2,4 mg levou a −14,9% em 68 semanas (Wilding et al., N Engl J Med 2021 — STEP 1), a tirzepatida 15 mg a −20,9% em 72 semanas (Jastreboff et al., N Engl J Med 2022 — SURMOUNT-1), e na comparação direta entre as duas a tirzepatida ficou em −20,2% contra −13,7% da semaglutida (Aronne et al., N Engl J Med 2025 — SURMOUNT-5). Uma metanálise em rede de 2025, com 56 ensaios e mais de 60 mil pacientes, chegou às mesmas posições (McGowan et al., Nat Med 2025).
O que a diretriz recomenda: "sempre que possível, deve-se considerar a utilização de fármacos de alta potência"; os de baixa a média potência "devem ser preferidos quando medicamentos de alta potência não puderem ser utilizados" (ABESO, ABESO 2026). Na vida real, "não puderem ser utilizados" inclui custo, falta do produto, medo de injeção, intolerância ao GLP-1 e indisponibilidade no plano — motivos legítimos e frequentes.
Se você quiser ver as contas das canetas, tenho ferramentas prontas: calculadora de doses da tirzepatida, conversor de doses da semaglutida e comparador de custos.
Para quem essa combinação tende a funcionar melhor
Essa é a parte que quase nenhum texto cobre, e é a conversa que de fato acontece na consulta. Nem todo mundo engorda pelo mesmo motivo. Um estudo que separou os pacientes por perfil alimentar antes de escolher o remédio obteve perda de 15,9% em um ano, contra 9,0% quando a escolha foi feita do jeito habitual (Acosta et al., Obesity 2021).
Pela lógica do mecanismo e pelo que os estudos sugerem, a dupla naltrexona + bupropiona tende a render mais em quem se reconhece aqui:
- Come por vontade e não por fome — a comida "chama", mesmo sem estômago vazio.
- Fissura por doce ou por ultraprocessado, especialmente à tarde e à noite.
- Beliscar contínuo ou episódios de comer compulsivo.
- Come em resposta a estresse, tédio ou ansiedade.
- Já parou de fumar ou quer parar, ou tem humor deprimido associado (a bupropiona é usada nessas duas situações).
E tende a render menos em quem tem fome física intensa e constante, saciedade que não chega e grandes volumes nas refeições — nesse perfil os agonistas de GLP-1 costumam ir melhor. Se quiser mapear o seu padrão antes da consulta, montei a escala de comportamento alimentar.
Como se toma: a subida de dose semana a semana
A dose nunca começa cheia. A titulação existe para reduzir náusea e, principalmente, para diminuir o risco de convulsão (bula brasileira, ANVISA 2026).
| Período | Manhã | Noite | Dose total do dia |
|---|---|---|---|
| Semana 1 | 1 comprimido | — | 8 mg / 90 mg |
| Semana 2 | 1 comprimido | 1 comprimido | 16 mg / 180 mg |
| Semana 3 | 2 comprimidos | 1 comprimido | 24 mg / 270 mg |
| Semana 4 em diante | 2 comprimidos | 2 comprimidos | 32 mg / 360 mg |
arraste a tabela para o lado →
Regras que importam de verdade:
- Não passar de 4 comprimidos por dia. O risco de convulsão da bupropiona depende da dose.
- Nunca tomar 2 comprimidos de uma vez só para "compensar" uma dose esquecida. Esqueceu, pule e siga no próximo horário.
- Não partir, mastigar nem triturar — é um comprimido de liberação prolongada.
- Evitar junto de refeição rica em gordura: aumenta bastante a absorção, e com ela o risco de convulsão.
- A dose da noite pode ser no fim da tarde, para atrapalhar menos o sono.
A regra das 16 semanas
Pela bula brasileira vigente: se, após 16 semanas de tratamento, não houve perda de pelo menos 5% do peso inicial, o medicamento deve ser interrompido. E a necessidade de continuar precisa ser reavaliada a cada ano (bula brasileira, ANVISA 2026; carta da ANVISA, 2026).
Essa regra protege o seu bolso e a sua saúde: ela evita que alguém passe um ano gastando com um remédio que, no seu corpo, não funcionou. Vale registrar uma divergência de datas: a Diretriz ABESO, de março de 2026, fala em 12 semanas; a bula, de junho de 2026, fala em 16. A bula é posterior e é a regra regulatória vigente.
Efeitos colaterais: o que esperar e o que fazer
Frequências da bula americana, com 2.545 pessoas usando a dose plena e 1.515 com placebo (bula do FDA, 2025).
| Efeito | Com o remédio | Com placebo | O que costuma ajudar |
|---|---|---|---|
| Náusea | 32,5% | 6,7% | Subir a dose mais devagar que a bula; tomar após comer algo leve; tende a ceder em 4 a 8 semanas |
| Constipação | 19,2% | 7,2% | Água, fibras, atividade física; às vezes precisa de laxante osmótico |
| Dor de cabeça | 17,6% | 10,4% | Costuma ser das primeiras semanas |
| Vômito | 10,7% | 2,9% | Se persistir, rever a dose com o médico |
| Tontura | 9,9% | 3,4% | Levantar devagar; medir a pressão |
| Insônia | 9,2% | 5,9% | Antecipar a dose da noite para o fim da tarde |
| Boca seca | 8,1% | 2,3% | Água, goma sem açúcar |
| Convulsão | cerca de 0,1% | 0% | Respeitar a dose máxima, a titulação e evitar refeição gordurosa |
arraste a tabela para o lado →
24% das pessoas pararam o tratamento por efeito colateral, contra 12% no placebo — a maior parte nos três primeiros meses, e a náusea é a campeã. Nas metanálises, essa combinação aparece com uma das maiores taxas de abandono por efeito adverso entre os remédios para obesidade (Khera et al., JAMA 2016; Shi et al., Lancet 2024).
Pressão e frequência cardíaca sobem um pouco. Nas primeiras 12 semanas, a diferença em relação ao placebo foi de 1,8 a 2,4 mmHg na pressão sistólica e cerca de 2 batimentos por minuto (bula do FDA, 2025). Parece pouco, e é — mas é o motivo pelo qual hipertensão não controlada é contraindicação e a pressão precisa ser medida antes de começar e acompanhada depois. Se você mede em casa, a planilha de monitoramento da pressão em casa ajuda.
Segurança cardiovascular: o que o estudo LIGHT mostrou e o que não mostrou
O LIGHT foi desenhado para responder se a combinação é segura para o coração: 8.910 pessoas com sobrepeso ou obesidade e risco cardiovascular aumentado (Nissen et al., JAMA 2016 — LIGHT). O estudo foi interrompido antes do fim — e o motivo não foi dano: o patrocinador divulgou publicamente resultados parciais que deveriam ser confidenciais, e isso inviabilizou a continuidade.
O que sobrou: na análise com metade dos eventos previstos, a taxa de eventos cardiovasculares graves foi semelhante entre os grupos. Não apareceu sinal de dano, mas o estudo não chegou a provar a segurança que se propunha a provar. Os próprios autores escreveram que a segurança cardiovascular permanece incerta. Uma metanálise brasileira sobre o tema chegou à mesma conclusão de ausência de sinal claro (Sposito et al., Obes Rev 2021).
Por isso as agências continuam atentas. A Europa concluiu em maio de 2025 uma revisão formal mantendo o remédio no mercado, mas com reavaliação anual obrigatória (EMA 2025), e o Brasil incorporou a mesma regra em 2026 (carta da ANVISA, 2026). Um novo ensaio cardiovascular, o INFORMUS, está em andamento, com resultados esperados por volta de 2028.
Quem não pode usar
A lista de contraindicações é das mais longas entre os remédios para obesidade — a própria diretriz brasileira registra que esse é um ponto desfavorável da combinação (ABESO, ABESO 2026). Pela bula brasileira (bula brasileira, ANVISA 2026):
- Hipertensão não controlada
- Epilepsia ou qualquer história de convulsão
- Tumor conhecido do sistema nervoso central
- História de transtorno bipolar
- Bulimia ou anorexia nervosa
- Uso crônico de opioides (metadona, buprenorfina, morfina, e também tramadol e codeína) ou abstinência aguda deles
- Interrupção abrupta de álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos ou antiepilépticos
- Uso de outro medicamento que já contenha bupropiona ou naltrexona
- Uso de inibidores da MAO — é preciso esperar 14 dias (vale também para linezolida e azul de metileno intravenoso)
- Insuficiência hepática grave e insuficiência renal terminal
- Gravidez (categoria X no Brasil) e amamentação
- Alergia a qualquer um dos componentes
Dois avisos práticos que raramente aparecem: se você usa esse remédio e precisar de cirurgia ou de analgésico forte, avise o anestesista e o cirurgião — a naltrexona bloqueia os opioides e pode tornar a analgesia ineficaz. E tramadol e codeína, muito prescritos no Brasil, entram nessa conta.
Receita e acesso no Brasil
Receita: naltrexona e bupropiona estão na lista C1 da Portaria 344/98. A dispensação exige Receita de Controle Especial em duas vias, com validade de 30 dias. Não é vendido sem receita, e qualquer site que ofereça sem prescrição está irregular.
Quatro marcas, mesmo princípio ativo. Existe a marca de referência e versões similares, todas com naltrexona 8 mg + bupropiona 90 mg na mesma apresentação. A diferença de valor entre elas é grande — vale perguntar ao seu médico e ao farmacêutico se cabe a versão similar da sua prescrição. É a economia mais fácil de conseguir neste tratamento.
Plano de saúde: medicamento oral de uso domiciliar, em regra, não entra na cobertura obrigatória da ANS. O custo costuma ser do paciente, e é um ponto que vale conversar antes de começar, porque o tratamento é longo.
Dá para manipular essa combinação?
Dá para manipular, mas a Diretriz ABESO 2026 é direta: não recomenda fórmulas magistrais para o tratamento da obesidade — é recomendação de classe III, a categoria reservada ao que "não é útil ou efetivo, e em alguns casos pode ser prejudicial" (ABESO, ABESO 2026). O argumento central é que fórmulas manipuladas não passam por ensaios clínicos nem pelo mesmo controle de qualidade.
No caso específico desta combinação existe um detalhe técnico que pesa mais do que qualquer economia: o comprimido industrializado é de liberação prolongada. Uma cápsula manipulada comum libera a bupropiona de uma vez, com pico de concentração mais alto — exatamente o que a titulação e a liberação lenta existem para evitar, por causa do risco de convulsão. Não é o mesmo medicamento em versão barata; é outro perfil de liberação. Tenho um material sobre o assunto nos manipulados em geral.
Posso usar junto com semaglutida ou tirzepatida?
A diretriz brasileira admite combinar medicamentos quando a resposta foi insuficiente, mas com três ressalvas importantes (ABESO, ABESO 2026):
- Associar um agonista de GLP-1 com naltrexona + bupropiona está entre as combinações consideradas aceitáveis, apoiada em dados observacionais — mas a própria diretriz registra que esses dados não se sustentaram na reanálise feita pela revista que os publicou. Ou seja: é plausível, não é comprovado.
- Não é recomendado associar sibutramina com naltrexona + bupropiona.
- Combinar dois remédios para obesidade é, em geral, uso fora da bula, e deve ficar a cargo de quem tem experiência no tratamento da obesidade.
Tirzepatida com naltrexona + bupropiona não tem estudo nenhum; se alguém fizer, precisa monitorar pressão e humor de perto.
O que eu levo em conta na consulta
Essa combinação costuma entrar na conversa quando: a pessoa não quer ou não pode usar injeção; o custo das canetas é inviável; o padrão alimentar é claramente de fissura e compulsão, e não de fome física; ou há um objetivo somado, como parar de fumar. E costuma sair da conversa quando: a pressão não está controlada; existe história de convulsão ou de transtorno bipolar; há uso de opioide; ou a meta de perda de peso é alta o bastante para que começar por um remédio de baixa a média potência signifique perder tempo.
Em qualquer cenário, o remédio é a parte menor. O estudo com melhor resultado foi justamente aquele com 28 sessões de acompanhamento ao longo do ano — e isso não é coincidência.
Perguntas frequentes
A naltrexona com bupropiona emagrece mesmo?
Sim, mas de forma modesta. Nos quatro ensaios de fase 3, a perda média de peso em 56 semanas foi de 5% a 9%, e a diferença em relação ao placebo ficou em torno de 4,8 pontos percentuais. Cerca de metade das pessoas perdeu pelo menos 5% do peso. É menos do que a semaglutida e a tirzepatida, e mais do que o orlistate.
Em quanto tempo começa a fazer efeito?
A dose plena só é atingida na 4ª semana. A perda de peso costuma continuar até o sexto ao nono mês e depois estabiliza. A bula brasileira manda reavaliar em 16 semanas: se não houve perda de pelo menos 5% do peso inicial, o tratamento deve ser interrompido.
Qual é melhor: naltrexona + bupropiona ou as canetas de semaglutida e tirzepatida?
Em perda de peso média, os agonistas de GLP-1 e a tirzepatida são claramente mais potentes. A combinação em comprimido tem outras vantagens: é oral, custa menos e atua sobre a fissura e o comer emocional. A escolha depende do seu perfil alimentar, das suas contraindicações, do custo e da sua preferência por comprimido ou injeção — é uma decisão de consulta, não de ranking.
Tem no Brasil? Como se chama?
Tem. A combinação é registrada na ANVISA como antiobesidade e está nas farmácias desde 2023, em quatro marcas: Contrave, Sliv, Reduxalt e Bupnal. Em outros países aparece como Contrave (EUA, Canadá, Austrália), Mysimba (Europa e Reino Unido) e Naltreva (Argentina).
Precisa de receita? Qual tipo?
Sim. Naltrexona e bupropiona estão na lista C1 da Portaria 344/98, o que exige Receita de Controle Especial em duas vias, válida por 30 dias. Não existe venda legal sem prescrição.
Quais são os principais efeitos colaterais?
Náusea (cerca de 1 em cada 3 pessoas), constipação, dor de cabeça, vômito, tontura, insônia e boca seca. Cerca de 24% das pessoas interromperam o tratamento por efeito colateral nos estudos, a maioria nos três primeiros meses. O risco de convulsão é baixo (em torno de 0,1%), mas é o motivo das regras de dose.
Aumenta a pressão arterial?
Um pouco. Nas primeiras 12 semanas, a diferença em relação ao placebo foi de 1,8 a 2,4 mmHg na pressão sistólica e cerca de 2 batimentos por minuto na frequência cardíaca. Por isso hipertensão não controlada é contraindicação, e a pressão deve ser medida antes de iniciar e acompanhada durante o uso.
Quem não pode tomar?
Quem tem hipertensão não controlada, epilepsia ou história de convulsão, transtorno bipolar, tumor do sistema nervoso central, bulimia ou anorexia, quem usa opioides cronicamente (incluindo tramadol e codeína), quem está interrompendo álcool ou benzodiazepínicos de forma abrupta, quem usa inibidores da MAO, grávidas e lactantes, além de casos de insuficiência hepática grave ou renal terminal.
Pode beber álcool?
O ideal é evitar. O álcool em excesso aumenta o risco de convulsão com a bupropiona, e a interrupção abrupta de um consumo pesado é contraindicação formal. Converse com o seu médico sobre o seu padrão de consumo antes de iniciar.
Engorda de novo quando para?
Pode acontecer, como com qualquer tratamento da obesidade: a obesidade é doença crônica, e retirar o tratamento tende a devolver parte do peso. É por isso que a decisão de continuar, trocar ou suspender deve ser reavaliada pelo menos uma vez por ano, com acompanhamento.
Posso manipular essa combinação para pagar mais barato?
A Diretriz ABESO 2026 não recomenda fórmulas magistrais no tratamento da obesidade. Além disso, o comprimido industrializado é de liberação prolongada: uma cápsula manipulada comum libera a bupropiona de uma vez, com pico mais alto — justamente o que a titulação procura evitar por causa do risco de convulsão.
Serve para depressão, ansiedade ou compulsão alimentar?
O registro desta combinação é para controle de peso, não para depressão. A bupropiona isoladamente é um antidepressivo, mas isso não transfere a indicação para a associação. Há interesse científico no uso em compulsão alimentar, e a redução da fissura é parte do mecanismo — mas quem decide isso é o médico que avalia o seu caso.
Referências
- Greenway FL, Fujioka K, Plodkowski RA, et al. Effect of naltrexone plus bupropion on weight loss in overweight and obese adults (COR-I): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial [COR-I]. Lancet. 2010;376(9741):595-605. doi:10.1016/s0140-6736(10)60888-4
- Apovian CM, Aronne L, Rubino D, et al. A randomized, phase 3 trial of naltrexone SR/bupropion SR on weight and obesity‐related risk factors (COR‐II) [COR-II]. Obesity. 2013;21(5):935-943. doi:10.1002/oby.20309
- Wadden TA, Foreyt JP, Foster GD, et al. Weight Loss With Naltrexone SR/Bupropion SR Combination Therapy as an Adjunct to Behavior Modification: The COR‐BMOD Trial [COR-BMOD]. Obesity. 2011;19(1):110-120. doi:10.1038/oby.2010.147
- Hollander P, Gupta AK, Plodkowski R, et al. Effects of Naltrexone Sustained- Release/Bupropion Sustained-Release Combination Therapy on Body Weight and Glycemic Parameters in Overweight and Obese Patients With Type 2 Diabetes [COR-Diabetes]. Diabetes Care. 2013;36(12):4022-4029. doi:10.2337/dc13-0234
- Nissen SE, Wolski KE, Prcela L, et al. Effect of Naltrexone-Bupropion on Major Adverse Cardiovascular Events in Overweight and Obese Patients With Cardiovascular Risk Factors [LIGHT]. JAMA. 2016;315(10):990. doi:10.1001/jama.2016.1558
- Sposito AC, Bonilha I, Luchiari B, et al. Cardiovascular safety of naltrexone and bupropion therapy: Systematic review and meta‐analyses. Obes Rev. 2021;22(6). doi:10.1111/obr.13224
- McGowan B, Ciudin A, Baker JL, et al. A systematic review and meta-analysis of the efficacy and safety of pharmacological treatments for obesity in adults. Nat Med. 2025;31(10):3317-3329. doi:10.1038/s41591-025-03978-z
- Khera R, Murad MH, Chandar AK, et al. Association of Pharmacological Treatments for Obesity With Weight Loss and Adverse Events. JAMA. 2016;315(22):2424. doi:10.1001/jama.2016.7602
- Iannone A, Natale P, Palmer SC, et al. Clinical outcomes associated with drugs for obesity and overweight: A systematic review and network meta‐analysis of randomized controlled trials. Diabetes Obes Metab. 2023;25(9):2535-2544. doi:10.1111/dom.15138
- Shi Q, Wang Y, Hao Q, et al. Pharmacotherapy for adults with overweight and obesity: a systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. Lancet. 2024;403(10434):e21-e31. doi:10.1016/s0140-6736(24)00351-9
- Damen JA, Idema DL, Vernooij RW, et al. Benefits and Harms of Pharmacologic Treatments in Adults With Overweight or Obesity: A Living Systematic Review and Network Meta-analysis for the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2026;179(8):1140-1155. doi:10.7326/annals-24-03764
- Acosta A, Camilleri M, Abu Dayyeh B, et al. Selection of Antiobesity Medications Based on Phenotypes Enhances Weight Loss: A Pragmatic Trial in an Obesity Clinic. Obesity. 2021;29(4):662-671. doi:10.1002/oby.23120
- ABESO. DIRETRIZ BRASILEIRA DE TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA OBESIDADE. ABESO. 2026. doi:10.47626/2026-abeso-0001
- Wilding JP, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity [STEP 1]. N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi:10.1056/nejmoa2032183
- Rubino DM, Greenway FL, Khalid U, et al. Effect of Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Daily Liraglutide on Body Weight in Adults With Overweight or Obesity Without Diabetes [STEP 8]. JAMA. 2022;327(2):138. doi:10.1001/jama.2021.23619
- Wharton S, Freitas P, Hjelmesæth J, et al. Once-weekly semaglutide 7·2 mg in adults with obesity (STEP UP): a randomised, controlled, phase 3b trial [STEP UP]. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(11):949-963. doi:10.1016/s2213-8587(25)00226-8
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity [SURMOUNT-1]. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/nejmoa2206038
- Aronne LJ, Horn DB, le Roux CW, et al. Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity [SURMOUNT-5]. N Engl J Med. 2025;393(1):26-36. doi:10.1056/nejmoa2416394
- ANVISA. Bula do profissional de saúde — CONTRAVE® (cloridrato de naltrexona 8 mg + cloridrato de bupropiona 90 mg). Merck S/A, registro 1.0089.0415. Texto aprovado em 19/06/2026. consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/ (buscar "CONTRAVE")
- ANVISA; Merck S/A. Carta aos profissionais de saúde — Contrave® (naltrexona/bupropiona): risco cardiovascular a longo prazo e novas recomendações sobre avaliação anual. 19 de maio de 2026. gov.br/anvisa
- U.S. Food and Drug Administration. CONTRAVE (naltrexone HCl and bupropion HCl) extended-release tablets — prescribing information. NDA 200063, revisão de novembro de 2025. accessdata.fda.gov
- European Medicines Agency. Mysimba (naltrexone/bupropion) — EPAR. EMEA/H/C/003687. Revisão do Artigo 20 concluída pela Comissão Europeia em 22 de maio de 2025. ema.europa.eu
- ANMAT (Argentina). Disposición 7876/2023 — autorização do NALTREVA® (naltrexona/bupropiona), certificado REM 58.766, 21 de setembro de 2023. anmat.gob.ar
Leia também
- Comparativo dos remédios para emagrecerQuanto cada um emagrece nos estudos, lado a lado
- Escala de comportamento alimentarMapeie se você come por fome ou por vontade antes da consulta
- Calculadora de IMCO número que define a indicação dos remédios para obesidade
- Calculadora de doses da tirzepatidaDoses, escalonamento e equivalências
- Conversor de doses da semaglutidaCaneta, seringa de insulina e manipulado
- Comparador de custosQuanto custa cada opção por mês
- Naltrexona em baixa dose (LDN)Por que não é a mesma coisa que a naltrexona desta associação
Importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e não deve, em hipótese alguma, ser utilizado para autodiagnóstico, automedicação ou tratamento. Ele não substitui a consulta com um profissional de saúde qualificado. A responsabilidade pelo uso das informações aqui apresentadas é inteiramente do usuário.
Declaro, de forma transparente, não haver qualquer conflito de interesse com as empresas farmacêuticas mencionadas neste texto. Os nomes comerciais citados aparecem apenas em contexto informativo, para que o leitor reconheça do que se trata na farmácia e na receita — não se trata de recomendação, indicação ou publicidade de marca. Este texto não promove, não compara comercialmente e não induz ao consumo de nenhum produto.
Medicamentos para obesidade são de prescrição obrigatória e, no caso desta combinação, sujeitos a controle especial. Só um médico que avalie o seu caso pode decidir se há indicação, qual a dose e por quanto tempo.
Todo o conteúdo presente em meu site e redes sociais tem como finalidade informar, educar e esclarecer — sempre de forma gratuita. Nenhuma informação aqui compartilhada deve ser usada como critério isolado para avaliação, diagnóstico ou conduta terapêutica. Cada pessoa é única e deve ser avaliada individualmente.

Médico (CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586). Atende por teleconsulta pacientes de todo o Brasil e do exterior. Este conteúdo é educativo, revisado com base nas referências citadas, e não substitui uma consulta.
Quer avaliar seu caso com calma?
Consulta por vídeo, para pacientes no Brasil e no exterior.
Ver como funciona a teleconsultaRevisado em 6 de novembro de 2026 por Dr. Diegomaier Nunes Neri — CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586.