A semaglutida é um análogo do GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) de ação prolongada, desenvolvido pela Novo Nordisk. Pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1 e é administrada por via subcutânea em dose semanal. Diferencia-se de moléculas mais antigas da mesma classe pela maior meia-vida plasmática, o que permite a dosagem semanal e um perfil de efeito mais estável ao longo dos dias.
Neste artigo, o Dr. Diegomaier Nunes Neri apresenta o mecanismo de ação da semaglutida e um panorama dos principais estudos clínicos disponíveis.
Mecanismo de ação
O GLP-1 é um hormônio incretínico liberado pelas células L do intestino delgado em resposta à ingestão de alimentos. A semaglutida mimetiza a ação desse hormônio ao se ligar ao receptor de GLP-1 (GLP-1R), que está presente em múltiplos tecidos e órgãos.
As principais ações mediadas pela semaglutida incluem:
- Pâncreas: Estimula a secreção de insulina de forma dependente de glicose (ou seja, apenas quando a glicemia está elevada) e inibe a secreção de glucagon, reduzindo a produção hepática de glicose.
- Estômago: Retarda o esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de saciedade após as refeições.
- Sistema nervoso central: Age em regiões hipotalâmicas relacionadas ao controle do apetite, reduzindo a ingestão calórica.
- Fígado e tecido adiposo: Efeitos metabólicos secundários descritos em estudos, incluindo redução da esteatose hepática.
A modificação estrutural que garante a meia-vida prolongada da semaglutida (aproximadamente 7 dias) é a ligação a uma cadeia de ácido graxo C18, que permite a ligação à albumina plasmática e retarda a degradação pela enzima DPP-4.
Principais estudos clínicos
Programa SUSTAIN (diabetes tipo 2)
O programa SUSTAIN avaliou a semaglutida subcutânea em adultos com diabetes tipo 2 em diferentes contextos comparativos — contra placebo, outros agonistas GLP-1, inibidores de SGLT-2 e insulina. Os estudos demonstraram reduções expressivas da HbA1c e do peso corporal.
O estudo SUSTAIN-6, com foco cardiovascular, avaliou desfechos em pacientes com alto risco cardiovascular ao longo de 104 semanas. Os resultados mostraram redução no desfecho composto de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em comparação ao placebo.
Programa STEP (obesidade)
O programa STEP avaliou a semaglutida 2,4 mg semanal em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade. Os dados do estudo STEP-1, publicado no New England Journal of Medicine em 2021 (Wilding et al.), demonstraram:
- Redução média de peso corporal de aproximadamente 14,9% ao longo de 68 semanas, comparado a 2,4% no grupo placebo.
- Perfil de segurança consistente com a classe, com efeitos adversos gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia) predominantemente no período de titulação.
- Reduções em marcadores cardiovasculares e metabólicos secundários.
O estudo SELECT (2023), publicado no New England Journal of Medicine, avaliou desfechos cardiovasculares com semaglutida 2,4 mg em adultos com sobrepeso/obesidade sem diabetes. Demonstrou redução significativa no risco de eventos cardiovasculares maiores ao longo de aproximadamente 3 anos de seguimento.
Situação regulatória
A semaglutida possui aprovação regulatória em múltiplas indicações:
- ANVISA (Brasil): Aprovada para o tratamento do diabetes tipo 2 (Ozempic®, 0,5 mg e 1 mg semanais). A dose de 2 mg semanal e a formulação para manejo do peso (Wegovy® 2,4 mg) seguem cronogramas próprios de registro.
- FDA (EUA): Aprovada como Ozempic® para diabetes tipo 2 (2017) e como Wegovy® para manejo do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade (2021).
- Formulações orais: A semaglutida oral (Rybelsus®) é aprovada para diabetes tipo 2 pelo FDA e ANVISA, com farmacocinética distinta da formulação injetável.
As indicações, dosagens aprovadas e disponibilidade comercial variam entre países e podem ter sido atualizadas após a data de publicação deste artigo. Consulte a bula registrada e as diretrizes clínicas vigentes.
Considerações clínicas
A semaglutida é a molécula com o maior conjunto de dados de desfechos cardiovasculares e de mortalidade disponível entre os agonistas GLP-1 até o momento, o que a torna relevante do ponto de vista clínico especialmente em pacientes com risco cardiovascular estabelecido.
Como em qualquer medicamento desta classe, as contraindicações incluem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. O uso exige avaliação médica individualizada, com análise de indicação, comorbidades e medicamentos em uso.
A semaglutida ocupa um lugar estabelecido na terapêutica do diabetes tipo 2 e da obesidade. Sua comparação com moléculas mais recentes — como tirzepatida (agonista dual GIP/GLP-1) e retatrutida (agonista triplo GIP/GLP-1/glucagon) — é objeto de estudos em andamento e de análise clínica individualizada.
📚 Leia também desta série:
Conteúdo de caráter informativo. Não substitui consulta médica individualizada. Consulte seu médico.
Leia também: Tirzepatida: mecanismo de ação e uso clínico do agonista dual GIP/GLP-1 | Retatrutida: o que é e como funciona o agonista triplo
Dr. Diegomaier Nunes Neri — MÉDICO | CRM-BA 33.151






