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Vitamina D baseada em evidência

Calcifediol x colecalciferol: o que os estudos mostram sobre as duas formas de vitamina D

Absorção, velocidade, potência e segurança, comparadas com dados de ensaios clínicos e metanálise. E por que trocar uma pela outra na mesma dose não é uma boa ideia.

Dr. Diegomaier Nunes NeriPor Dr. Diegomaier Nunes Neri, médico · CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586 · revisado em · leitura de 18 min
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Resposta curta: o colecalciferol (vitamina D3) é a forma de reposição mais usada e mais estudada do mundo. O calcifediol é a própria 25-hidroxivitamina D, o composto que o exame mede: por já "pular" a etapa do fígado e ser absorvido de forma mais completa, ele eleva o 25(OH)D mais rápido e com doses bem menores, cerca de 2 a 5 vezes mais potente conforme o estudo (Quesada-Gomez & Bouillon, Osteoporos Int 2018; Bouden et al., Eur J Clin Nutr 2025). Isso não o torna "melhor para todo mundo": por ser mais potente, as doses não são intercambiáveis, e o excesso aparece mais rápido. Hoje ele faz mais sentido em situações específicas, como má absorção intestinal, cirurgia bariátrica, doença do fígado, obesidade ou quando é preciso corrigir a deficiência com rapidez (Jodar et al., Eur J Nutr 2023; Cesareo et al., Nutrients 2019; Koga et al., Arch Endocrinol Metab 2025). A escolha é individual.

O que é cada um

A vitamina D que produzimos na pele com o sol, ou que ingerimos, é o colecalciferol (D3). Ela ainda não age: primeiro o fígado acrescenta um grupo hidroxila na posição 25 e forma a 25-hidroxivitamina D [25(OH)D], também chamada calcifediol ou calcidiol. É essa a forma que circula em maior quantidade e que o laboratório dosa no exame de "vitamina D". Depois, sobretudo no rim, ela vira calcitriol, o hormônio ativo (Bouillon & Quesada-Gomez, J Steroid Biochem Mol Biol 2023; Cianferotti et al., Endocrine 2015).

Colecalciferol (D3)Sol na pele, alimentos e suplemento
Fígado25-hidroxilase (CYP2R1)
Calcifediol25(OH)DCalcifediol por via oral · entra direto aqui
Rimcalcitriol (ativo)
Onde cada forma entra no caminho da vitamina D: o colecalciferol (D3) ainda precisa passar pelo fígado; o calcifediol já é o 25(OH)D, o mesmo composto medido no exame.

Ou seja: tomar calcifediol é tomar diretamente o metabólito que o exame mede, sem depender da conversão no fígado. Não é a mesma coisa que tomar calcitriol ou alfacalcidol, as formas ativas, que têm indicações próprias (como doença renal avançada e hipoparatireoidismo) e não são usadas de rotina para corrigir deficiência comum, pelo risco de cálcio alto no sangue e na urina (Cesareo et al., Nutrients 2018; Cianferotti et al., Endocrine 2015).

Comparativo lado a lado

CaracterísticaColecalciferol (D3)Calcifediol (25(OH)D)
Etapa no fígadoPrecisa ser convertido em 25(OH)DJá é o 25(OH)D
Absorção intestinalDepende de gordura, bile e da via linfática (quilomícrons)Mais hidrofílico, absorvido de forma quase completa pela veia porta
Velocidade de subida do 25(OH)DGradual (semanas a meses)Rápida (dias a poucas semanas)
Potência por microgramaReferência (1×)Cerca de 2 a 5× nos estudos; média de 3,2× em doses fisiológicas
Curva dose-respostaAchata quando o nível de partida já é mais altoMais linear e previsível
Depósito no tecido adiposoMaiorMenor
Queda após pararLentaMais rápida
Volume de evidênciaDécadas de uso e a maior parte dos grandes estudosMenor, crescente, sobretudo na Europa

Fontes da tabela: revisões de Quesada-Gomez & Bouillon e de Jodar et al., metanálise de Bouden et al. e os ensaios citados abaixo (Quesada-Gomez & Bouillon, Osteoporos Int 2018; Jodar et al., Eur J Nutr 2023; Bouden et al., Eur J Clin Nutr 2025).

Por que o calcifediol sobe o nível mais rápido

1. Ele não depende do fígado

A conversão de D3 em 25(OH)D depende da enzima 25-hidroxilase (principalmente a CYP2R1). A atividade dessa etapa varia de pessoa para pessoa, por diferenças genéticas, e pode estar reduzida em doença hepática e em obesidade. O calcifediol entra depois dessa etapa, o que ajuda a explicar a resposta mais uniforme entre as pessoas (Jodar et al., Eur J Nutr 2023; Pérez-Castrillón et al., Nutrients 2022).

2. É absorvido de forma mais completa

O colecalciferol é muito lipossolúvel: para ser absorvido, precisa de gordura e bile na refeição e segue pela via linfática dentro dos quilomícrons. O calcifediol, com um grupo hidroxila a mais, é mais polar e vai direto para a circulação pela veia porta. Por isso, em quem tem má absorção de gordura, a absorção do calcifediol tende a ficar praticamente preservada, enquanto a do D3 cai bastante (Quesada-Gomez & Bouillon, Osteoporos Int 2018; Bouillon & Quesada-Gomez, J Steroid Biochem Mol Biol 2023).

3. Fica menos "preso" na gordura corporal

Por ser mais hidrofílico, o calcifediol se acumula menos no tecido adiposo, um dos motivos pelos quais pessoas com obesidade costumam precisar de doses maiores de D3 para atingir o mesmo nível (Jodar et al., Eur J Nutr 2023; Holick et al., J Clin Endocrinol Metab 2011).

O que os estudos mostram, em números

A comparação direta entre as duas formas foi feita em vários ensaios randomizados. Os principais resultados:

EstudoQuem participouDoses comparadasResultado principal
Bischoff-Ferrari et al., 201220 mulheres na pós-menopausa20 µg/dia de cada, por 4 meses25(OH)D médio de 69,5 ng/mL com calcifediol x 31,0 ng/mL com D3; sem hipercalcemia
Cashman et al., 201256 adultos ≥ 50 anos, no inverno7 ou 20 µg/dia de calcifediol x 20 µg/dia de D3, 10 semanasCada micrograma de calcifediol rendeu cerca de 4 a 5 vezes mais 25(OH)D
Jetter et al., 201435 mulheres de 50 a 70 anosDiário, semanal ou dose únicaCalcifediol cerca de 2 a 3× mais potente; todas passaram de 30 ng/mL em média em 16,8 dias, contra 70% em 68,4 dias com D3
Shieh et al., 201735 adultos com 25(OH)D < 20 ng/mL20 µg/dia de calcifediol x 60 µg/dia (2.400 UI) de D3, 16 semanasEm 4 semanas, 87,5% x 23,1% chegaram a ≥ 30 ng/mL
Vaes et al., 201859 pessoas ≥ 65 anos5, 10 ou 15 µg/dia de calcifediol x 20 µg/dia de D3, 24 semanas10 e 15 µg de calcifediol passaram de 75 nmol/L em 8 e 4 semanas; D3 chegou perto de 70 nmol/L em 16 semanas
Graeff-Armas et al., 202091 adultos, média de 63 anos10, 15 ou 20 µg/dia de calcifediol x 20 µg/dia de D3, 6 mesesCerca de 3× mais eficaz por micrograma; 75 nmol/L em 7 a 10 dias x 40 dias
Pérez-Castrillón et al., 2021 e 2023303 mulheres na pós-menopausa com 25(OH)D < 20 ng/mLCalcifediol 0,266 mg/mês x D3 25.000 UI/mês, 12 mesesAos 4 meses, 35,0% x 8,2% acima de 30 ng/mL; aos 12 meses, níveis médios parecidos (23,9 x 22,4 ng/mL); ao suspender o calcifediol, o nível voltou ao basal

Esses números vêm dos próprios ensaios (Bischoff-Ferrari et al., J Bone Miner Res 2012; Cashman et al., Am J Clin Nutr 2012; Jetter et al., Bone 2014; Shieh et al., J Clin Endocrinol Metab 2017; Vaes et al., Clin Nutr 2018; Graeff-Armas et al., J Nutr 2020; Pérez-Castrillón et al., J Bone Miner Res 2021; Pérez-Castrillón et al., J Bone Miner Res 2023). Numa revisão de nove ensaios com doses fisiológicas (até 25 µg/dia), cada micrograma de D3 elevou o 25(OH)D em cerca de 1,5 nmol/L, contra 4,8 nmol/L por micrograma de calcifediol, ou seja, potência média 3,2 vezes maior (Quesada-Gomez & Bouillon, Osteoporos Int 2018).

A metanálise mais recente reuniu 17 estudos e 1.575 participantes: em 12 ensaios o calcifediol elevou mais o 25(OH)D; em 2 as duas formas foram equivalentes; e em 3 o D3 foi mais eficaz, o que mostra que dose, frequência e perfil dos participantes mudam o resultado (Bouden et al., Eur J Clin Nutr 2025).

Um detalhe que costuma passar despercebido: no estudo de 12 meses com doses mensais, a vantagem do calcifediol foi sobretudo de velocidade. Ao fim de um ano, os níveis médios ficaram parecidos com os do D3 na dose usada, e caíram logo depois que o calcifediol foi suspenso (Pérez-Castrillón et al., J Bone Miner Res 2023). Vale citar também que esses dois ensaios foram financiados pelo fabricante espanhol do calcifediol, algo que os próprios autores declaram.

As doses não são equivalentes

Este é o ponto mais importante para a segurança. Um micrograma de calcifediol não equivale a um micrograma de D3. Na Espanha, onde o calcifediol é usado há décadas, um estudo chamou atenção para o hábito de prescrever o calcifediol na mesma dose do D3: com 20 µg/dia por 12 meses, o 25(OH)D chegou a 188 nmol/L com calcifediol, contra 86 nmol/L com D3; com 266 µg por semana, a 233 nmol/L (Navarro-Valverde et al., J Steroid Biochem Mol Biol 2016). Em 2019, a agência de medicamentos espanhola (AEMPS) publicou um alerta sobre casos graves de hipercalcemia associados a doses e frequências acima das recomendadas de vitamina D, incluindo calcifediol.

No Brasil, um relato de caso da Unifesp mostrou o outro lado da moeda: numa paciente com cirrose, obesidade e osteoporose que não atingia o alvo com D3, o calcifediol corrigiu o nível em um mês, mas a dose de 20 µg/dia levou o 25(OH)D a mais de 80 ng/mL, exigindo pausa e ajuste para uma dose bem menor (Koga et al., Arch Endocrinol Metab 2025). Os autores reforçam que a dose precisa ser individualizada e acompanhada por exame.

Por isso a calculadora do site não serve para calcifediol. A calculadora de vitamina D estima a reposição de colecalciferol (D3) pelo método de van Groningen (van Groningen et al., Eur J Endocrinol 2010). Usar o resultado dela como dose de calcifediol levaria a uma dose várias vezes mais potente do que a calculada.

Quando o calcifediol pode fazer sentido

Revisões e posicionamentos europeus apontam cenários em que as vantagens farmacológicas do calcifediol têm mais peso (Jodar et al., Eur J Nutr 2023; Cesareo et al., Nutrients 2018; Cesareo et al., Nutrients 2019; Koga et al., Arch Endocrinol Metab 2025):

Na doença renal crônica, o raciocínio é outro: o problema principal costuma estar na etapa renal. Ainda assim, uma forma de calcifediol de liberação prolongada foi estudada em pessoas com doença renal estágios 3 e 4 e hiperparatireoidismo secundário: normalizou o 25(OH)D em mais de 95% dos participantes e reduziu o PTH, com pouco efeito sobre cálcio e fósforo (Sprague et al., Am J Nephrol 2016). É uma indicação específica, conduzida pela nefrologia.

Quando o colecalciferol continua sendo a escolha natural

Para a maioria das pessoas com deficiência comum, o D3 segue sendo a base: tem muito mais tempo de uso, mais estudos de longo prazo, custo baixo e foi a forma usada nos grandes ensaios de osteoporose (Bouillon & Quesada-Gomez, J Steroid Biochem Mol Biol 2023; Sosa Henríquez et al., Nutrients 2020). Como o D3 tem um "estoque" maior e queda mais lenta, ele também permite esquemas espaçados com níveis mais estáveis. Em resumo, os autores das principais revisões descrevem o calcifediol como uma alternativa útil, e não como substituto universal (Quesada-Gomez & Bouillon, Osteoporos Int 2018; Cianferotti et al., Endocrine 2015).

Segurança: o que observar

Nas doses estudadas, os ensaios não relataram diferença relevante de segurança entre as duas formas, e os casos de hipercalcemia foram raros (Pérez-Castrillón et al., Nutrients 2022; Minisola et al., Osteoporos Int 2017; Bouden et al., Eur J Clin Nutr 2025). O risco aparece com doses altas por tempo prolongado, quase sempre por erro de dose ou uso por conta própria. Os sinais de excesso de vitamina D vêm do cálcio alto: náusea, vômitos, sede e urina em excesso, fraqueza, confusão e, com o tempo, cálculos e lesão renal (Marcinowska-Suchowierska, Front Endocrinol 2018).

E no Brasil?

Segundo publicação nos Arquivos de Endocrinologia e Metabolismo, o calcifediol está disponível no Brasil como suplemento desde 2022, em comprimido de 10 µg (Koga et al., Arch Endocrinol Metab 2025). Na Europa, o uso como suplemento na população saudável foi limitado a até 10 µg por dia em adultos; doses terapêuticas maiores ficam sob supervisão médica e são ajustadas conforme o nível de 25(OH)D, a condição de base e as outras doenças da pessoa (Jodar et al., Eur J Nutr 2023). A dosagem de vitamina D não precisa ser feita de rotina em adultos saudáveis; ela é mais útil em grupos de risco e para acompanhar uma reposição (Demay et al., J Clin Endocrinol Metab 2024; Pludowski et al., Nutrients 2022).

Em resumo

Perguntas frequentes

Calcifediol é o mesmo que vitamina D?

É uma forma da vitamina D: o calcifediol é a 25-hidroxivitamina D, o composto que o fígado produz a partir do colecalciferol (D3) e que o exame de sangue mede. Não é a forma ativa (calcitriol).

Calcifediol é melhor que vitamina D3?

Ele eleva o nível mais rápido e com doses menores, mas isso não o torna melhor para todos. Para a maioria das pessoas o D3 resolve, com mais estudos de longo prazo. O calcifediol ganha vantagem em situações como má absorção, pós-bariátrica, doença do fígado e obesidade, sempre com acompanhamento.

Posso trocar a vitamina D3 por calcifediol na mesma dose?

Não. As doses não são equivalentes: o calcifediol é várias vezes mais potente por micrograma. Usar a mesma dose pode elevar demais o 25(OH)D. Qualquer troca deve ser orientada por um médico, com exame de controle.

Quanto tempo o calcifediol leva para fazer efeito no exame?

Nos estudos, o 25(OH)D sobe de forma relevante em dias a poucas semanas; com D3, em semanas a meses. Em um ensaio, todas as participantes com calcifediol passaram de 30 ng/mL em média em 16,8 dias, contra 68,4 dias com D3.

Calcifediol serve para quem fez cirurgia bariátrica?

É um dos cenários em que ele é mais citado, porque a absorção do calcifediol depende menos da gordura da dieta e da bile. A decisão, a dose e o controle com exames ficam com a equipe que acompanha a pessoa.

A calculadora de vitamina D do site vale para calcifediol?

Não. A calculadora foi feita para colecalciferol (D3). Como o calcifediol é mais potente, aplicar o mesmo resultado a ele daria uma dose excessiva.

Qual o nível ideal de vitamina D no exame?

Pelo posicionamento brasileiro (SBEM e SBPC), acima de 20 ng/mL para a população geral e entre 30 e 60 ng/mL para grupos de risco. Acima de 100 ng/mL há risco de toxicidade.

Referências

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Dr. Diegomaier Nunes Neri
Dr. Diegomaier Nunes Neri

Médico (CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586). Atende por teleconsulta pacientes de todo o Brasil e do exterior. Este conteúdo é educativo, revisado com base nas referências citadas, e não substitui uma consulta.

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Revisado em 31 de outubro de 2026 por Dr. Diegomaier Nunes Neri — CRM-SC 32925 | CRM-BA 39586.